segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

MATADOURO e COLETIVO DIRIGÍVEL apresentam “Dobradinhas”

São tantos os véus que colocam entre nós e as obras que dedicar a vida a rasga-los é talvez o grande esforço pedagógico do olhar. Contemplar a forma além de ver as aparências, compreender a essência além de reconhecer as fórmulas. Certas obras se revelam brilhantes pérolas na lama que julgávamos mais pútrida. É que, na maioria das vezes, são os nossos olhos que estão enlameados dos mais tolos preconceitos. O MATADOURO, em parceria com o Coletivo Dirigível, põe na mesa as “Dobradinhas”, que consistirá na exibição de um filme, uma pausa, uma conferência-relâmpago, e a exibição de mais um filme. Serão três Dobradinhas, cada uma delas expurgará um sub-gênero caro ao cinema desprezado.

Dia 08/02 – O Peplum (sandália-espada)
- The vikings, Richard Fleischer
- Hércules e a conquista de Atlântida, vittorio cottafavi.

Dia 15/02 – O Gore
- Antropophagus (Joe D’Amato)
- Pavor na Cidade dos Zumbis (Lucio Fulci)



Dia 22/02 – As Vampiras
- As fugitivas (Jean Rollin)
- Female vampire (Jesus Franco)

SERVIÇO:
Sábados, das 19 as 23h
Tv. Padre Prudêncio, 731 - Campina
ENTRADA FRANCA

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

MATADOURO: Sem Limites!



 Em "Thunder Road" (A lei da montanha - 1958), Lucas Doolin (Robert Mitchum) é um transportador de bebidas em plena lei seca que possui o talento de jamais ser pego. Doolin define em poucas palavras o palco de sua tragédia ao dizer a sua namorada: "Você está em um extremo e o Vale Rillow em outro. Eu me movo rapidamente entre um e outro. É a natureza do meu negócio.” Esse senso do inevitável que transforma a fuga constante em um estado natural, coloca "Thunder Road" como uma das obras seminais do cinema de perseguição.

 A maratona "Sem Limites!" apresenta três clássicos do cinema de perseguição da década de 70, um panorama da maturidade que o gênero vai atingir em filmes como: Vanishing Point (1971) de Richard C. Sarafian, onde o destino humano se revela em uma jornada sem rumo; ou mesmo Dirty Mary, Crazy Larry (1974) de John Hough, que deliberadamente funde o ranger dos dentes com o rugido do motor. Excitante e frenético, coração e motor; finalizando com Gone in 60 Seconds (1974) do artesão H.B. Halicki, dublê e diretor do filme que ficou lembrado por seus 40 minutos finais que registram quase 100 acidentes, a ode absoluta ao cinema de perseguição e seu virtuosismo.

Max Andreone (APJCC - 2013)

14h - Dirty Mary, Crazy Larry (1974)
16h - Vanishing Point (1971)
18h - Gone in 60 Seconds (1974)


09 de Novembro
Local : Escola de Música da UFPA
(Magalhães Barata n° 611 em frente ao Vilhena Alves)
Apartir das 14H
ENTRADA FRANCA

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

OFICINA DE FORMAÇÃO CINECLUBISTA NO ATELIER DE ARTES

MATADOURO E POTEMKIN apresentam

OFICINA DE FORMAÇÃO CINECLUBISTA


Não existe escola maior de cinema do que assistir as obras audiovisuais de seus realizadores. Um ano de estudo sobre o “neo-realismo”, sua importância histórica e analise dos seus conceitos filosóficos não valem mais que assistir aos 10 minutos finais de “Alemanha, Ano Zero”, de Roberto Rossellini. 
Nada substitui a relação do espectador com um autor e suas ideias enquanto forma. Pode-se decorar datas, saber responder a formulários de múltipla-escolha e até resolver questões subjetivas embasadas em tal ou qual referencial teórico, mas a RELAÇÃO ESTÉTICA – ou em outras palavras, o 'acontecimento erótico das almas na senda sagrada da eternidade' - é insubstituível e insuperável.
O cineclube é o apagar e o acender das luzes. No seu momento escuro seu intuito é cultivar esse tipo de relação, insistir sempre pra urgência desse contato. 
Mas também existe o acender. A outra viagem, depois da inconsciente. A que retorna, através da memória, ao filme, e que cutuca, com a vara da razão, as imagens. É o momento da comunhão da consciência; quando todos os espectadores – que em outro momento, uníssonos, olhavam a tela – agora se olham nos olhos, partilham olhares. É a movimento DIALÉTICO. 
Na prática cineclubista o que se busca é a instauração do espaço da aprendizagem, onde não existem hierarquias, mas troca de conhecimento. O filme como esfinge e o cinema como enigma revelam o percurso eterno dos peregrinos, que, em roda, desejando se descobrir, trocam impressões acerca dos mistérios partilhados. O cineclube é um produtor de imaginário, e, ademais, um estimulador do senso crítico. Receptivo e ativo, num movimento constante em busca de equilíbrio. 
Ele pode assumir várias funções: sociais, culturais, espirituais, políticas, científicas, pedagógicas, catárticas, profiláticas. Depende dos cineclubistas. 
Esta OFICINA DE FORMAÇÃO CINECLUBISTA tem como foco a criação do Cineclube do Curso de Cinema. O que será, só seus construtores poderão descobrir. Aguardamos todos os interessados para a obra... 

Ministrante: Mateus Moura
Produção: João Luciano e Arthur Alves


Local: Auditório do Atelier de Artes do Campus Guamá - UFPa

Programa:
Dia 12 (segunda-feira)
14h as 18h
- Apresentação da oficina e dos projetos (Matadouro e Navega)
- Discussão acerca da importância dos projetos de extensão para credibilização do curso institucionalmente 

- Reflexões sobre o cineclubismo e sobre que cineclube querem montar:

a – o que é um “cineclube”?
b – A importância em cada contexto
c – Os papéis do cineclubista
d – As funções do cineclube

-Os processos na prática cineclubista:

a – pré-produção (estudo, curadoria, comunicação)
b – produção (montagem técnica, condução de debate, apresentação de conceitos, registro)
c – pós-produção (divulgação do registro, construção da memória)

- Aula sobre a “montagem do circo” (estrutura)


Dia 13 (terça-feira)

14h as 18h
- Como montar uma cinemateca própria?
a – Discussão acerca da pirataria
b – A fraternidade cinefílica

- Montemos a programação:

a – Quais os critérios?
b – Que funções cada um assumirá?
c – Qual o espaço? Como conseguir a infra-estrutura necessária?
d – Quais as duvidas? 
e – Proposta para uma programação semestral

terça-feira, 9 de julho de 2013

O MATADOURO assina a Moção de apoio à greve estudantil da FAV-ICA

Universidade Federal do Pará – Faculdade de Artes Visuais

O CINECLUBE MATADOURO se solidariza com os estudantes dos cursos de Bacharelado em Cinema e Audiovisual e Bacharelado em Museologia da Universidade Federal do Pará que, em assembleias realizadas nos dias 03/07/2013 e 04/07/2013, deliberaram pelo estado de greve estudantil que movimenta estudantes de ambos os cursos.
A partir das reinvindicações levantadas pelo corpo discente, compreende-se a necessidade de levantar discussões acerca da real situação dos cursos de cinema e museologia da UFPa que, desde seu início, com o investimento do REUni (Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) perpassa por uma série de esperas e deficiências no que tange a estrutura de ensino.
Objetivando lutar por melhorias e esclarecimentos quanto às precariedades de ambos os cursos, juntamente com o corpo docente e os técnicos administrativos da faculdade, o corpo discente propõe a realização de atividades ligadas à arte que levem a um acordo entre reitoria e as demais partes já citadas, quanto à solução do atual quadro de ensino existente no Instituto de Ciências das Artes – ICA.
Oferecemos o compartilhamento de qualquer informação relevante no contexto da luta estudantil, a divulgação e o apoio nas atividades de greve a serem estabelecidas. Nos comprometemos, desta forma, a atuar nas manifestações junto aos corpos discente, docente e aos técnicos administrativos em busca da qualidade do ensino.



Moção de apoio à greve estudantil da FAV-ICA
09 de Julho de 2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

1ª MOSTRA MATA D'OURO DE REALIZADORES INDEPENDENTES

1ª MOSTRA MATA D’OURO DE REALIZADORES INDEPENDENTES     

Há muitos e muitos anos, na velha Europa, o jovem Jean Luc Godard entrevistou o ancião Fritz Lang. A sombra e o farol. Uma luz a acender, a outra a apagar. 

O documentário “Le dinosaure et le Bébé” (61 minutos) é um diálogo entre tempos.
E o cinema é a arte dos tempos... reza a lenda também que é a arte da síntese. 
A 1ª Mostra Mata D’Ouro de Realizadores Independentes quer traduzir esta síntese.
Nestes tempos e nestas redes, de embalar e de pescar, o projeto Matadouro completa 1 ano de atividades no espaço da UFPa e o Cineclube Amazonas Douro completa 10 anos de estradas e ruas. 
Dois tempos dialogáveis pela via das imagens das obras que projetam e sobre as quais refletem sem vergonha de pensar - entre si, de forma estilhaçada, fragmentária, justaposta.
Assim como o documentário de Godard - que contém excertos de “M - o vampiro de Dusseldorf” (de F. Lang) e “O Desprezo” (de Godard) -, as imagens - na história amazônida - não são pertenças das cronologias. 
Elas se desprendem dos imaginários, explodem nos processos criativos da solidária cultura digital. Com os velhos, os seus conhecimentos tradicionais e as juventudes pós-modernas. As academias e os pajés. As ciências e as mandingas. Tempos de ser. E são. Enredados.
Sob estes princípios, os espíritos cineclubistas do Matadouro e do Amazonas Douro convocam diferentes gerações de realizadores para que estes traduzam a sua produção e dialoguem sobre os caminhos e as sendas do cinema de nossos rios e florestas.
O foco é o cinema independente. 

A liturgia celebra o encontro da cidade com a sua cultura, entre gerações e olhares, entre práticas e seus rastros.

Em duas noites, na Capela da UFPa, nenhuma pergunta se calará sobre o que se produz e se produziu por essas bandas, em diversos formatos de produção e linguagem.
Se é o ouro que buscamos, que sejamos alquimistas ao invés de garimpeiros, cultivemos a comunidade ao invés da competição e a verdade antes do museu. 
Dediquemos olhares à construção de nossa própria Imagem.

1ª MOSTRA MATA D’OURO DE REALIZADORES INDEPENDENTES

27 e 28 de Fevereiro - Capela da UFPa - 18H30 ÀS 21h30

PROGRAMA:

27 de Fevereiro de 2013

ICARO GAYA Vivendo em casa 18’
VICENTE CECIM Matadouro 16’ / Fonte dos que dormem 30’
MATEUS MOURA Prólogo 13’ / O meu é especial 13’
MARCIO BARRADAS O rebanho 9’/ Coração Roxo 15’
Dia 28 de Fevereiro de 2013

RODOLFO MENDONÇA Cronos 1’ / Do amor 5’
EVANDRO MEDEIROS Araguaia Campo Sagrado 51’
FRANCISCO WEYL Anais 9’ / Chapéu do Metafísico 13’
MARCELO MARAT Necronomicon 11’ / Puzzle 18


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

MATADOURO APRESENTA: CICLO PINKY VIOLENCE


A narração inicial de “Faster Pussycat Kill, Kill!” anunciava: "Ladies and gentlemen, welcome to violence”  e apresentava um mundo de amazonas loucas, dirigindo em alta velocidade, destruindo homens inseguros e disformes. A força dessa verve insana e transgressora vai atingir um de seus maiores ápices no final da década de 60, com um gênero conhecido como “Pinky Violence”.

O cinema japonês estava em crise e como tentativa de resgatar o público, mostrou-se o que a televisão (um dos maiores vilões dessa crise) não poderia mostrar: violência e sexo.

A Toei* vai comandar esse filão com o seu “Pinky Vilolence”, uma série de filmes exploitation que vão utilizar muito do cinema de ação desse período (yakuza, samurais, motoqueiros) com um pequeno diferencial: eles serão protagonizados por mulheres.
O gênero tinha por regra uma certa quantidade de nudez e violência, mas entre uma coisa e outra foram contrabandeadas uma série de reflexões sociais e críticas, além de experimentações visuais, que com o passar dos anos se destacam tanto quanto os excessos.

* Produtora de filmes japonesa.



                                                    12/12 - Sex & Fury (1973)
Direção: Norifumi Suzuki


 



 
13/12 - Female Convict Scorpion: Jailhouse 41 (1972)
Direção: Shunya Ito


 




14/12 - School of the Holy Beast (1974)
Direção: Norifumi Suzuki







SERVIÇO:
No atelier de artes da Ufpa
18hs
ENTRADA FRANCA

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

MATADOURO APRESENTA: Deixa Ela Entrar (2008)


Direção:  Tomas Alfredson 


Quarta, 24 de outubro de 2012
No atelier de artes da UFPA/ 18:30
ENTRADA FRANCA

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Sangue de Lucio Fulci


MATADOURO APRESENTA:

Beatrice Cenci. Lucio Fulci. 1969.


Lucio Fulci é a pele do cinema, exposta. Lagarto, troca de gênero, jamais de olhar; sua língua é afiada, caçadora. Nossas emoções, insetos. Fisiológico, Lucio Fulci é a pele do espírito, exposta. É o que pulsa.
Assisti-lo é um corpo-a-corpo, um olho-no-olho, nos eleva ao extremo estado das emoções mais selvagens: do voyeurismo ao sado-masoquismo, do desejo ao medo, da agonia ao prazer, do horror ao amor. É a tempestade que lampeja detrás da retina do cinéfilo ao contato eriçado do seu aparato captador áudio-visual com imagens/sons explosivas que se oferecem num sonho sangrento, maravilhoso e inefável. É a contemplação da ação dos ossos quebrando, das veias estourando, do sangue jorrando, dos olhos furando. É a emoção - aquele movimento de dentro pra fora, que nos faz sentir vivos. É a violência inventada, saboreada como ficção. É a pulsão destrutiva saciada na comunhão com a arte.
Em uma palavra: Lucio Fulci é o GORE. Ou em bom português: as Vísceras.

SERVIÇO:
Quarta-feira, 18 de julho
18:30
no ICA - Praça da Republica (Pres. Vargas)
Entrada franca


terça-feira, 10 de julho de 2012

MATADOURO APRESENTA: Cure de Kiyoshi KUROSAWA





A premissa básica de “Cure” é uma narrativa detetivesca de uma série de homicídios sem motivo aparente. Kurosawa desloca as formas básicas do gênero policial e cria uma atmosfera de vazio. Sua relação com os elementos que compõe o filme é única.
O som é monótono, o tempo dos planos transcorre de forma calma, as cenas mais violentas são feitas num tom quase banal. A estrutura do filme vibra como uma sinfonia “mesmerizante” que nos mostra algo mais que um filme policial.

Max andreone (APJCC)

SERVIÇO:
Quarta-feira, 11 de julho
18:30
no ICA - Praça da Republica (Pres. Vargas)
Entrada franca

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Só mente imagens


Só mente imagens
Texto para a sessão de “La nuit des traquées” de Jean Rollin


“O natural é tão falso como o falso. Somente o arquifalso é realmente real” (Rogério Sganzerla sobre José Mojica Marins)

Quem disse que a sensação ao ver um filme deve ser eternamente essa análoga à de acompanhar uma história como seguimos um romance em sua leitura e vê-la como sentimos o teatro em sua ação? Quem disse que a sensação não pode ser aquela análoga à da contemplação de uma fotografia de Duane Michals, ou à emoção de ouvir uma interpretação de Wes Montgomery, ou ainda o prazer de compreender um conceito desenvolvido por Immanuel Kant?
E por que tantas analogias com processos contemplativos de outras artes e saberes para falar de cinema? É por que parece ser o principal problema dos olhos presos: o condicionamento a uma forma engessada de contemplação. Isso é fruto de uma imposição de uma “monocultura Cinema Clássico”, do “latifúndio Hollywood”, ou de uma particular “preguiça ao novo”, de uma natural “repulsa ao marginal”? A culpa é de quem? O que importa é que os filmes de Rollin são litros do melhor colírio para a libertação dos olhos, e, logo, da imaginação.
Inspirado pelas histórias fantásticas de quadrinhos, as séries de cinema de aventuras, os quadros surrealistas e os pesadelos inesquecíveis de sua tenra infância, Jean Rollin legou o exemplo contundente de que a honestidade à invenção que ouvimos de nós mesmos é a maior herança que podemos deixar à humanidade.



Da gang dos cineastas “exploitation” - gênero de filmes de baixo orçamento que tem como principal característica o uso de apelativos comerciais como a violência gráfica e o erotismo exacerbado - saíram grandes cineastas, dos anos 70 até hoje, cineastas que atravessaram tais concessões para ressignificá-las esteticamente, atingindo o belo através da catarse da paixão corporal e da explosão dos sentimentos. Rollin, considerado “cineasta classe Z”, segue um caminho ainda mais tortuoso. Em seus filmes, cenas de violência ou de sexo existem aos montes, mas são cine-encenadas não com o interesse de deleitar, através da transparência do aparato, o espectador ávido para atiçar suas pulsões escópicas pervertidas; ele propõe a opacidade, o distanciamento, o olhar contemplativo para a condição de um ser e de um cinema. Pobre, Rollin não escamoteia os poucos recursos de sua produção, antes escancara... revela assim não o “tosco”, o “mal feito”, mas o “artificial”, o “verdadeiro”... nas cenas de sexo tudo é falso, escancaradamente falso, não lhe interessa que o espectador se envolva com o sexo sensualmente, mas enquanto imagem em construção; propõe um olho que lê, que tem consciência que sonha. Seus atores são amadores ou vem das fitas pornôs que realizava com pseudônimos para poder fazer seus filmes mais autorais. São, na verdade, antes de atores, modelos, e antes de modelos, corpos, e antes de corpos, imagens. Briggite Lahaie, sua vampira mais famosa, era vista por ele como uma “estátua viva”, ou uma “pintura viva”, não tanto uma atriz.
Rollin transgrediu tudo, mesmo convivendo no meio mais transgressor. No gênero horror transgrediu sua mitologia, criando posturas e relações inusitadas de personas como o vampiro e o morto-vivo; transgrediu também o tom, renegando os efeitos atmosféricos fáceis para causar medo ou repulsa, perseguindo acima de todos os tons o do feérico mistério – a essência da beleza do sonho; transgrediu também a representação naturalista ou clássica dos filmes deste viés, e abandonou qualquer explicação de traço psicológico para seus personagens ou condições de verossimilhança para seus enredos. Reinventou tudo isso, e ao invés de contar estórias mais filosofou acerca do sublime e da morte, assim também ao invés de pintar quadros figurativos mais coreografou música entre aparições de olhos e gestos de corpos.
Alguns cineastas atingem o cinema, outros partem dele. Jean Rollin, cinepoeta surrealista de primeiro time, AMADOR no sentido buñuelístico da palavra, faz parte dos que partem da essência. Se seu cinema é pouco reconhecido pela maioria do público e da crítica é porque este artista amou demais as imagens. Amou além de todos os vícios que o cinema engendrou enquanto cultura.

La nuit des traquées (As fugitivas). 1980



“O misterioso vírus que acomete os personagens de La Nuit des traquées (1980), extraindo-lhes a memória, é outro exemplo de desconstrução do gênero por Rollin. Filmado numa Paris entre a madrugada e o amanhecer, num imponente edifício comercial vazio, o thriller de perseguição que o título ("A Noite das Perseguições") sugere converte-se num poema visual entre o grotesco e o sublime, no qual as buscas dos protagonistas são “apagadas” constantemente, rompendo com o desenvolvimento narrativo convencional.” : Assim, o crítico paraense Adolfo Gomes - quem me apresentou o cinema de Jean Rollin -, descreve o filme. Adolfo considera o cineasta francês o “Brecht dos vampiros”.
“Era noite. Veronique estava nua. Ela me larga. Eu estou perdida na noite. Totalmente só. E depois, a luz como um trem. Enfim, é tudo.” Assim, tateando a mente, Elizabeth (Briggite Lahaie) persegue imagens.
No entanto, tudo só existe no instante. O resto é vago, é dubitável, é memória. Só o presente é real, só a duração é.
A fotografia capta um fragmento da realidade exterior, o cinema capta a duração de um momento (o presente em fluxo). E a obra, enquanto feérie, é a mentira enquanto realidade (ou a verdade da invenção); o cenário é “La Defense”, o principal prédio do maior centro financeiro de Paris. Ele se transforma na “Torre Negra”, onde zumbis transitam entre corredores. Paris se transforma num amontoado de torres. Da torre onde habitam esses seres se vê apenas o Arco do Triunfo como esperança.
Toda grande ficção científica é a metáfora clara extremamente enigmática da realidade que cerca a existência do autor. Fornos crematórios, trens-fantasmas, a angústia profunda da noite, a sensação de desorientação e da perseguição de forças burocráticas, os olhos vazios, os homem ocos, a higienização dos diferentes, a reação nuclear - toda relação que se possa fazer com a vida moderna não é mera coincidência.
Jean Rollin foi, no cinema, um dos mais originais arautos do insólito, do encantamento, do fantástico, do horror, do sonho/pesadelo. Foi também um dos mais honestos estetas, um apaixonado pela beleza das puras imagens.  Filho do onírico, criado pelo bizarro, perseguiu o sublime. Não foi aceito pela cultura. Seguiu, rumo à arte. Como Robert, deixou-se conduzir pela musica dos violinos que só a trapaça das musas-vampiras pode escutar. “Se se portar bem, encontrará sua amada”, diz ela. Robert dança, Rollin dança.
E quando perdemos o senso do gesto, do equilíbrio, da imagem justa, quando o que nos ofereceram enquanto Beleza não encaixa à essência que escorre pela nossa imaginação? Aí é preciso reconstruir, instituir – nem para si, por soluções. É quando fechamos os olhos, olhamos a memória vazia, e inventamos imagens para poder ser enquanto linguagem. Imagens de um passado, um futuro? Apenas imagens. Somos vivos enquanto somos tomados pelas imagens, e quando apenas tomados pelas imagens – como quando vivenciamos a experiência cinematográfica - morto-vivos. Somos morte em vida, assistindo; acompanhando a morte como vida, na tela.  A única coisa que existe é o instante presente. O imediato.
A última cena só pode ser comparada em beleza no cinema de horror na cena final de The Beyond de Lucio Fulci.
Ela caminha no trilho do trem, talvez atrás da primeira imagem que teve acesso durante o filme, quando Robert, com seus dois faróis, surgiu para resgatá-la da fria noite que é o passado (aquilo que não existe). Do trilho caminha para um grande portão de ferro, o abre, e começa a travessia da ponte. Ela não é mais humana, animal ou planta, se arrasta sem cérebro, alguma força a arrasta por aquele caminho, alguma força gera a imagem. Robert atravessa o portão, leva um tiro na nuca, e agora peregrina o caminho do além. No mesmo estado podem caminhar, sem precisar se lembrar do nome um do outro, nem outras convenções. Não há mais máscaras, identidades, angústias, doenças ou prazeres, apenas a eternidade, enlaçada pelas mãos.

Mateus Moura (APJCC – 2012)

Sob Maldição (Procuremos a "Cura")

Carlão morre, Rollin não é exibido pela segunda vez por problemas técnicos misteriosos, um dia depois o parceiro Cine Gempac não consegue exibir sua programação (também por problemas técnicos). A bruxa tá solta!
Antes do cancelamento da sessão anterior do MATADOURO, na história da APJCC, só uma sessão havia sido enforcada (por causa de uma greve de ônibus), no extinto Cine Uepa. "As fugitivas", de Jean Rollin conseguiu uma façanha maior, conferindo de vez, a sua condição de "obra maldita".
Uma maldição realmente paira, as legendas da mídia que eu mesmo havia visto na semana passada no mesmo dvd, sumiram no meio do filme. Tentamos prosseguir a qualquer custo, mas não teve jeito. Desde que esse filme foi programado, além da morte do Reichenbach e da sessão também cancelada do Gempac, começamos a desconfiar que a greve nas federais bem como a condição precária da classe docente no  país é rebarba da maldição que este belo filme carrega enquanto cruz.
Decidimos, devido à incidência de fatos sobrenaturais, reagir como um diretor e não um protagonista de filme de zumbi: vamos arrumar esse enredo, tá bom de ser vítima.
A dívida com Jean Rollin permanece, mas passemos, por enquanto, ao Oriente. Na próxima quarta, às 18:30, no ICA (Pres. Vargas), "Cure", de Kiyoshi Kurosawa, talvez o cineasta do gênero horror mais interessante que surgiu nos últimos dias. A sessão é chancelada pela "Ordem Monge Takuan". Compareçam!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

MATADOURO de volta, enfim Jean Rollin


Depois de ser enforcado, passar uma estadia no além e atravessar dois córregos entre o céu o inferno com o Carlão Reichenbach, o MATADOURO volta para cumprir seus TRABALHOS.

Na próxima quarta-feira, dia 04 de julho, às 18:30, exibição, enfim, de La nuit des traquées de Jean Rollin. Esta sessão é dedicada em luto ao Carlão, aos espectadores que foram na sessão que foi cancelada e a todos os amantes do gênero e da cinefilia.


Próximo à hora perifeérica do amanhecer, ainda nas brumas da madrugada, uma mulher corre desesperada por uma estrada, nas imediações de Paris. Elizabeth é seu nome, é a única coisa da qual se lembra. Ela só vive o presente, não há futuro ou passado, apenas o imediato, tal qual o cinema e a condição de assistir em que existimos.

Na primeira cena todo o seu cinema: o mistério desenhado através da imagem, as cores dando o tom através do áudio, há filosofia... começam assim os sonhos do cineasta Jean Rollin, um dos maiores cineastas desconhecidos da História dessa Arte.

Renegado - só porque amava as imagens acima de tudo.

Mateus Moura (APJCC – 2012)

SERVIÇO:
 Quarta-feira, 04 de julho
 18:30
 no ICA - Praça da Republica (Pres. Vargas)
 Entrada franca

quarta-feira, 30 de maio de 2012

MATADOURO tem sessão enforcada

Os motivos do cancelamento da sessão foram estruturais, de equipamento. Temos o apoio do Curso de Cinema para o equipamento, mas o mesmo se encontrava fechado. Também temos o apoio do Curso de Música, mas o mesmo ia fechar o expediente às 19, não pudemos ficar com o equipamento pois só quem ia ficar no Atelier até às 20 era a Copa, que não poderia se responsabilizar pelo equipamento caso algo acontecesse.
Mais de 20 pessoas, entre estudantes e simpatizantes externos da UFPa, vieram assistir ao filme, agradecemos e pedimos desculpas pelo acontecido. A sessão será remarcada, e o espaço será repensado (já que a greve realmente está parando o movimento). Agradecemos a compreensão e o companheirismo. Essa nova exibição será em homenagem à todos vocês.

foto oficial dos que estavam às 18:30 para a sessão

lista de pessoas que vieram e não viram
Portal ORM: 30/05/2012



Jornal Diário do Pará: 30/05/2012


sexta-feira, 25 de maio de 2012

O poeta das vampiras brinda o MATADOURO

MATADOURO APRESENTA:

As fugitivas (La nuit des traquées). Jean Rollin. 1980.

Próximo à hora perifeérica do amanhecer, ainda nas brumas da madrugada, uma mulher corre desesperada por uma estrada, nas imediações de Paris. Elizabeth é seu nome, é a única coisa da qual se lembra. Ela só vive o presente, não há futuro ou passado, apenas o imediato, tal qual o cinema e a condição de assistir em que existimos.
Na primeira cena todo o seu cinema: o mistério desenhado através da imagem, as cores dando o tom através do áudio, há filosofia... começam assim os sonhos do cineasta Jean Rollin, um dos maiores cineastas desconhecidos da História dessa Arte.
Renegado - só porque amava as imagens acima de tudo.

Mateus Moura (APJCC – 2012)
 
 
SERVIÇO:
Quarta, 30 de Maio de 2012
No atelier de artes da UFPA/ 18:30
 
obs: essa programação integra o movimento "Greve em Movimento", realizada pelo corpo discente da UFPa, que pretende dinamitar várias ações no Atelier e fora dele enquanto a Universidade se encontra de greve. O movimento apóia a greve, apóia a educação e apóia a liberdade.